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O que mais atrapalha a tomada de decisão?

Nós tomamos decisões o tempo todo, mesmo quando não estamos conscientes do que estamos fazendo. Das mais ordinárias como o que vamos vestir, comer e fazer no dia-a-dia às mais complexas como mudar de carreira ou de cidade. Não pensamos muito sobre o processo de tomada de decisão em si, mesmo quando sabemos que temos certas dificuldades para fazermos escolhas mais sérias. Não temos noção de que algumas tendências em nosso próprio comportamento e modo de pensar possam estar influenciando negativamente a nossa capacidade de fazer escolhas assertivas. Nesse artigo, vamos ver três delas. Nas próximas semanas, vamos continuar falando sobre esse assunto, analisando outras tendências que afetam nossa tomada de decisão.

1. Ancoramento

Mas que diabos é isso?! Ancoramento é um processo psicológico de “ancoragem” na primeira informação que obtemos a respeito de um assunto. Como isso ocorre na prática? Digamos que eu tenha ouvido falar que o seguro de carros na cor vermelha custa mais caro do que carros de outras cores. Essa foi a primeira informação que eu ouvi sobre esse assunto e por um bom tempo acreditei que era assim e pronto. Um belo dia, um amigo chega pra mim e diz que comprou um carro vermelho. Eu argumento que ele terá que pagar um seguro mais caro. O amigo retruca e diz que eu estou louca! “Não faz o menor sentido! O valor do seguro é definido por outros fatores, não cor. Você está errada.” Por ter acreditado durante tanto tempo que carros vermelhos pagam mais seguro, eu naturalmente não acredito em meu amigo. Eu estava ancorada na primeira informação que eu obtive a respeito de seguros de carros vermelhos. Para o meu azar, essa informação estava realmente errada e meu amigo estava certo!

Com muita frequência, temos dificuldade para tomarmos decisões certeiras que envolvem “verdades” que contradizem as informações que já temos acumuladas a respeito de um assunto. Acabamos tomando a decisão errada porque acreditamos em informações incorretas.

A solução para o ancoramento é investigar a fundo todos os detalhes a respeito do assunto que você precisa tomar uma decisão mais séria. Não assuma que nada é verdade sem uma comprovação mais sólida e não assuma que você já sabe pois você pode estar ancorado em informação incorreta ou, em alguns casos, ultrapassada.

2. Evidências sem poder estatístico

Podemos ocasionalmente nos apegar a fatos isolados e usá-los para argumentar e justificar nosso ponto de vista sem considerar a probabilidade estatística daquele fato dentro do que estamos avaliando. Um exemplo clássico são os fumantes que defendem seu vício argumentando que conhecem fulano e ciclano que viveram até 90, 100 anos com saúde e fumaram a vida inteira. Casos isolados não devem servir como base de análise ou mesmo argumentação. O fato de que fulano fumou a vida inteira e nunca teve problemas de saúde relacionados ao vício não serve como prova de que cigarro não faz ma algum.

Da mesma forma, não devemos pegar casos isolados de sucesso e usarmos clichês batidos para justificar nossas decisões levianas em direção a metas que não possuem qualquer probabilidade de realmente darem certo. Que clichês são esses? ‘Qualquer um pode conseguir o que quiser, basta se esforçar.’ ‘Se o fulano conseguiu, qualquer um pode conseguir.’ ‘Ele não sabia que era impossível, foi lá e fez.’ E assim por diante. É muito motivador ver uma dessas histórias de conquistas contra todas as probabilidades. Contudo, muita gente deixa de perceber os detalhes dessas histórias e como elas se diferenciam de seu próprio caso. Além disso, muita coisa que dá certo é questão de timing, aquela pessoa, naquela situação, naquela época, naquele lugar, teve foco suficiente e conseguiu conquistar a meta X. Outra pessoa em outra época, com outra personalidade, outro lugar, mesmo com o mesmo foco não conseguiria emular os passos de quem foi bem sucedido antes dele.

Se alguém muito bem focado e determinado tentasse com todo afinco imitar exatamente tudo o que Steve Jobs fez na vida, ela não conseguiria recriar a Apple, nem sequer construir 1/10 do sucesso que Jobs teve em vida.

O futuro não imita o passado e exceções são apenas exceções. É muito importante manter isso mente ao tomar decisões, pensando sempre na probabilidade de que seus planos dêem certo sem cair na armadilha de clichês otimistas.

3. Loop de confirmação

Pessoas supersticiosas tendem a ver “sincronicidade” em tudo, quer seja para confirmar que realmente estão certas, quer seja para reafirmar seu pessimismo de que as coisas estão fadadas a darem errado.

Quando acreditamos que algo vai dar certo, começamos a associar todos os eventos positivos que ocorrem em torno daquilo como uma confirmação “do universo” ou de Deus de que estamos no caminho certo e que aquilo realmente “vai dar certo”.

Por outro lado, se estamos inseguros, com medo de que talvez tenhamos tomado a decisão errada (ou estamos prestes a tomar), começamos a ver cada evento negativo, cada desencontro como evidência de que aquilo “não é pra acontecer” ou de que “tomados o caminho errado”.

É um loop de confirmação, prestamos atenção em tudo o que possa confirmar nosso ponto de vista, seja de que vai funcionar ou não.

Sincronicidade é realmente algo muito interessante, mas é algo que absolutamente não temos a menor compreensão. Lances de sorte e azar ocorrem o tempo todo, com todo mundo. Em muitos casos de sucesso, podemos ouvir histórias de como muitas coisas deram errado ao longo do caminho. Se fossemos seguir a lógica de que sincronicidade negativa “significa” que não vai dar certo, essas histórias não teriam vingado, não é mesmo?! Contudo, elas são extremamente comuns. Inclusive, eu acredito que não tenha uma só história de uma longa jornada que culminou em sucesso que não tenha sido temperada por maus momentos, desencontros e quedas.

Essas três tendências são extremamente poderosas e operam no nível inconsciente em nossa mente. Acreditamos que estamos vendo a realidade clara e límpida com todos os dados sobre a questão analisada sobre a mesa quando, na realidade, estamos sendo enganados por nossos próprios mecanismos. Nos próximos artigos vamos avaliar mais algumas tendências. Conhecê-las nos ajuda a trazer para o nível consciente todos os detalhes relacionados ao processo de decisão e garante escolhas mais assertivas e lúcidas.

Esse artigo continua aqui [1].